A GRANDE SEMANA



        Nesta semana mais importante do ano, celebramos o Mistério Pascal, recordando a Paixão, Morte e, na Páscoa, a Ressurreição de Jesus Cristo: “nele encontra plena realização toda a ânsia e anelo do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão diante da ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte... Nele, morto e ressuscitado para a nossa salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram esses dois mil anos da nossa história da salvação” (Porta Fidei).     
           É o tempo também de pensarmos nos nossos pecados, deles nos arrependendo e pedindo perdão. Em sua mensagem para a Quaresma deste ano, com o tema tirado das palavras de Jesus: “Porque se multiplicará a iniquidade vai resfriar o amor de muitos” (Mt 24, 12), o Papa Francisco nos convida à reflexão: “E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário”.  
            E o Papa nos convida a tirar todo o fruto das cerimônias da Semana Santa, especialmente da Vigília Pascal: “Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do ‘lume novo’, pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. ‘A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito’, para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor”.  
            Sugiro alguns bons pensamentos para a Semana Santa: “Se, qual o ladrão, estás crucificado com Cristo, como homem íntegro, reconhece a Deus. Se por tua causa e por teu pecado ele foi tratado como malfeitor, torna-te justo por seu amor. Adora aquele que foi crucificado por tua causa. Preso à tua cruz, aprende a tirar proveito até da tua própria iniquidade. Adquire a tua salvação com a sua morte, entra com Jesus no paraíso, e saberás que bens perdeste com a tua queda. Contempla as belezas daquele lugar, e deixa que o ladrão rebelde fique dele excluído, morrendo na sua blasfêmia”.
            “Se és José de Arimateia, pede o corpo a quem o mandou crucificar; e assim será tua a vítima que expiou o pecado do mundo. Se és Nicodemos, aquele adorador noturno de Deus, unge-o com perfumes para a sua sepultura”.
            “Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, derrama tuas lágrimas por ele. Levanta-te de manhã cedo, procura ser o primeiro a ver a pedra do túmulo afastada, e a encontrar talvez os anjos, ou melhor ainda, o próprio Jesus” (São Gregório de Nazianzo, bispo).
                Feliz Páscoa a todos!         

OS DESEQUILIBRADOS

   
           Essa palavra aqui significa apenas a falta de equilíbrio.
         Dizem que quando apresentaram ao Papa B. Paulo VI uma imagem de Nossa Senhora do Equilíbrio, ele teria exclamado: “Santa Maria do Equilíbrio, é justamente dela que se precisa hoje!” Naquele tempo, no período do pós-concílio, a Igreja passava por momentos de extremismos, como agora.
         O equilíbrio, que não é indecisão nem covardia, em termos de virtude chama-se prudência, a correta razão de agir. S. Tomás ensina que a virtude está no meio. No equilíbrio. Contra ela pode-se pecar por falta ou por excesso. Manter o equilíbrio é posição mais difícil do que cair nos extremos. A posição extremista pode parecer mais ortodoxa, mais firme e até mais atraente. Mas não é a mais correta, a mais honesta e a mais verdadeira.
         Na questão social, por exemplo, a posição de equilíbrio está na doutrina social da Igreja: defende o papel da empresa, a economia de mercado, a livre criatividade no setor econômico e o direito de propriedade, combatendo o mercantilismo e o consumismo do capitalismo errôneo; defende os pobres, a justa distribuição de renda e o necessário contexto jurídico que ponha a economia ao serviço da liberdade humana integral, mas combate os erros do socialismo e do comunismo. Alguns pendem só para um lado e abraçam os erros: desequilíbrio! E, querendo combater os erros do capitalismo selvagem, caem no marxismo e defendem até a invasão da legítima propriedade alheia. Desequilibrados!
           E os desequilibrados na liturgia da Igreja, transformando-a em programa de auditório!
         E na doutrina? A heresia, escolha parcial do que se quer aceitar ao invés da adesão total à verdade, é um desequilíbrio.
       Alguns deram demasiado poder aos leigos. Outros não querem nem os escutar, quando justamente reclamam: desequilibrados!
        Erros graves na parte humana da Igreja sempre houve e haverá. Desde o tempo de Judas Iscariotes, escolhido por Jesus para ser seu Apóstolo. Desequilibrou-se para o lado do dinheiro!
         Nem por isso perdemos a fé em Jesus Cristo e na sua Igreja.
        Sobre a obediência devida aos Pastores da Igreja, o direito e o dever da crítica a eles, o Direito Canônico mostra bem a posição de equilíbrio necessária:
        “Os fiéis, conscientes da sua responsabilidade, têm obrigação de prestar obediência cristã àquilo que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo, declaram na sua qualidade de mestres da fé ou estabelecem como governantes da Igreja”.
       “Os fiéis têm a faculdade de expor aos Pastores da Igreja as suas necessidades, sobretudo espirituais, e os seus anseios”.
        “Os fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de a exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas” (Cânon 212, §§ 1, 2 e 3).
       Há, porém, os que, pretendendo corrigir os erros, perdem os limites e caem no desrespeito e na falta de ponderação nos julgamentos: desequilibrados! Se não guardam a reverência devida e o respeito para com as pessoas, suas críticas, mesmo razoáveis, perdem legitimidade e eficácia.
        Na ânsia de atacar o erro por falta, cai-se no erro por excesso, e vice-versa. O fundamentalismo e extremismo sectários são desequilibrados.                 A diferença entre o remédio e o veneno está na dose. A proporção faz a bondade ou a malícia.
       Aplico aqui aos desequilibrados, de todos os matizes, o que o célebre jornalista e pensador inglês Chesterton (1874-1936), que se converteu ao Catolicismo em 1922, escrevia sobre os doidos ou maníacos, que são os desequilibrados por excelência:
      “Os desequilibrados são, frequentemente, grandes pensadores... A última coisa que poderá ser dita acerca de um desequilibrado é que suas ações são desprovidas de causa... Ele vê sempre razão demasiada em todas as coisas. O desequilibrado poderá mesmo atribuir uma intenção conspiratória a algumas atividades sem sentido praticadas pelo homem sadio... Uma de suas características mais sinistras é a espantosa clareza nos pormenores: as coisas ligam-se umas às outras em um plano mais intrincado do que um labirinto. Se você discutir com um desequilibrado, muito provavelmente levará a pior, pois a mente do alienado, em muitos sentidos, move-se muito mais rapidamente porque não se detém em coisas que preocupam apenas quem tem bom raciocínio... A explicação que um desequilibrado dá a respeito de qualquer coisa é sempre completa e, por vezes, satisfatória, num sentido puramente racional... O desequilibrado vive na arejada e bem iluminada prisão de uma única ideia, e todo o seu espírito converge para um ponto afiado e doloroso, sem aquela hesitação e complexidade próprias das pessoas normais... Os desequilibrados nunca têm dúvidas...” (Chesterton, Ortodoxia).
     Quer dizer, com tais pessoas não adianta discutir: eles estão sempre certos!
     Ou seja, o desequilibrado é uma pessoa cheia de lógica e razão, pode impressionar os incautos e causar confusão nos menos avisados. Mas lhe falta o bom senso, o que torna uma pessoa normal. A diferença entre o certo e o errado é, às vezes, sutil. São Bento, na sua regra, nos adverte: “Há caminhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o fundo do inferno” (V 22).
     Nossa Senhora do Equilíbrio, rogai por nós!




O PAI É NECESSÁRIO

            A família é composta de pai e mãe, que geram os filhos. A presença do pai é necessária, não só para a geração, mas, sobretudo, para a educação dos filhos. O filho precisa do pai, da figura do pai, da presença do pai na sua vida. Isso é tão marcante que o próprio Pai eterno, quando enviou o seu filho ao mundo, Deus feito homem, concebido de maneira virginal, quis que alguém o substituísse visivelmente como Pai adotivo na Sagrada Família de Belém e Nazaré: o escolhido foi São José, cuja solenidade celebraremos no próximo dia 19 e durante todo o mês de março.       
            Quando ele tinha apenas desposado Maria, primeira parte do casamento hebraico, mas antes de recebê-la em casa, ocorreu a Anunciação e a Encarnação do Filho de Deus. Maria objetou ao Anjo mensageiro a impossibilidade de ter um filho, pois “não conhecia varão” (Lc 1,34), isso apesar de ser noiva de José, o que claramente indica o seu voto de virgindade, de pleno conhecimento do seu futuro esposo. O Anjo, da parte de Deus, lhe garantiu que a concepção daquele filho não seria por obra humana, mas sim “por virtude do Espírito Santo” (Mt 1,18). O próprio José, em sonho, foi advertido pelo anjo do que ocorrera. E ele teria como missão ser o guarda da honra e da virgindade daquela Virgem Mãe e pai nutrício daquele Filho, que era realmente o Filho de Deus. E Jesus lhe dava o nome de pai, sendo conhecido como “o filho do carpinteiro” (Mt 13,55), tido por todos “como sendo filho de José” (Lc 3,23).  
            São José cuidou dessa esposa e do seu Filho, quando do seu nascimento em Belém, e protegeu a Sagrada Família, sobretudo, na fuga para o Egito, quando da perseguição de Herodes ao Menino Jesus. Como chefe e protetor da Sagrada Família, ele se tornou o patrono de todas as famílias. E seu modelo de amor, humildade, paciência e obediência a Deus: “Do exemplo de São José chega a todos um forte convite a desenvolver com fidelidade, simplicidade e modéstia a tarefa que a Providência nos designou” (Bento XVI).
           São José é também o padroeiro dos trabalhadores porque, como carpinteiro, sustentava a Sagrada Família com o seu suor e o trabalho de suas mãos. A festa de São José, como padroeiro dos trabalhadores, se comemora no dia 1º de maio, dia do trabalho.  
            Antigamente havia uma festa especial para honrar o Patrocínio de São José, ou seja, sua proteção, seu amparo. Daí o nome muito comum a pessoas e cidades, Patrocínio e José do Patrocínio, em honra do patrocínio de São José. Tendo tido a mais bela das mortes, pois morreu assistido por Jesus, que ainda não tinha começado a sua vida pública, e por Maria Santíssima, São José é invocado como padroeiro dos moribundos e patrono da boa morte.  
            O Papa Pio IX proclamou São José patrono da Igreja, que é a família de Deus, tão necessitada de sua proteção e defesa em meio às mesmas necessidades e perseguições que sofreu a Sagrada Família. Por tantos gloriosos motivos, São José faz jus à honra e à devoção especial que lhe tributamos.
                                                                                           

A DIGNIDADE DA MULHER

         Amanhã é o dia internacional da mulher. Como todos os anos, prestamos aqui nossa homenagem a elas, pela sua excelente dignidade e valor diante de Deus e dos homens.
           Na verdade, foi o cristianismo que salvou a dignidade da mulher! A história, nos testemunhos de Juvenal e Ovídio, nos conta que a moral sexual e a fidelidade conjugal, antes do cristianismo, estavam em extrema degradação. Constatamos isso, vendo atualmente a situação da mulher nos povos que não têm o cristianismo. No começo do século II, Tácito afirmava que uma mulher casta era um fenômeno raro. Galeno, médico grego do século II, ficava impressionado com a retidão do comportamento sexual dos cristãos. Os próprios historiadores são obrigados a confessar que foram os cristãos que restauraram a dignidade do matrimônio.
           As mulheres encontraram na Igreja, conforme a sua própria condição, seu lugar digno: foi-lhes permitido formar comunidades religiosas dotadas de governo próprio, dirigir suas próprias escolas, conventos, colégios, hospitais e orfanatos, coisa impensável no mundo antigo (cf. Thomas E. Woods Jr, “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental”).
          Isso confere com o que ensina Papa S. João Paulo II: “Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: ‘ficaram admirados por estar ele conversando com uma mulher’ (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos. Em todo o ensinamento de Jesus, como também no seu comportamento, não se encontra nada que denote a discriminação, própria do seu tempo, da mulher. Devemos nos colocar no contexto do ‘princípio’ bíblico, no qual a verdade revelada sobre o homem como ‘imagem e semelhança de Deus’ constitui a base imutável de toda a antropologia cristã. ‘Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou, criou-os homem e mulher’ (Gn 1, 27). Os dois são seres humanos, em grau igual, ambos criados à imagem de Deus” (Mulieris dignitatem, sobre a dignidade e a vocação da mulher).
        Mas, “a igualdade de dignidade não significa ser idêntico aos homens. Isso só empobrece as mulheres e toda a sociedade, deformando ou perdendo a riqueza única e valores próprios da feminilidade. Na visão da Igreja, o homem e a mulher foram chamados pelo Criador para viver em profunda comunhão entre si, conhecendo-se mutuamente, para dar a si mesmos e agir em conjunto, tendendo para o bem comum com as características complementares do que é feminino e masculino” (S. João Paulo II, Mensagem sobre a mulher, 26/5/1995).
        Dizemos hoje, como fez S. João Paulo II (Carta às Mulheres, 29/6/1995), o nosso muito obrigado às mulheres, a todas e a cada uma, representadas na mulher-mãe: “Obrigado a ti, mulher-mãe, que te fazes ventre do ser humano na alegria e no sofrimento de uma experiência única, que te torna o sorriso de Deus pela criatura que é dada à luz, que te faz guia dos seus primeiros passos, amparo do seu crescimento, ponto de referência por todo o caminho da vida”.

EM DEFESA DA CNBB

        Tem havido ultimamente muitas críticas e mesmo ofensas e insultos à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que requerem esclarecimentos, pois desorientam os católicos.
        AOS CARÍSSIMOS IRMÃOS LEIGOS, em cujo ano estamos – ano do laicato -, lembro-lhes paternalmente que a Igreja como mãe os ama, quer o seu bem e deseja escutá-los também.
        Sinceramente lhes digo que esses insultos à Conferência Episcopal me atingem também de certa maneira, pois dela faço parte por ser Bispo católico, pela graça de Deus, em plena comunhão com a Santa Igreja. Aos que pensam que a CNBB é apenas um escritório central, uma agência ou “quase um sindicato dos Bispos”, ensino-lhes que a CNBB é o conjunto dos Bispos do Brasil que, exercem conjuntamente certas funções pastorais em favor dos fiéis do seu território (CIC cân. 447).  Conforme explicou São João Paulo II na Carta Apostólica Apostolos suos, é “muito conveniente que, em todo o mundo, os Bispos da mesma nação ou região se reúnam periodicamente em assembleia, para que, da comunicação de pareceres e experiências, e da troca de opiniões, resulte uma santa colaboração de esforços para bem comum das Igrejas”. Ensina ele que “a união colegial do Episcopado manifesta a natureza da Igreja... Assim como a Igreja é una e universal, assim também o Episcopado é uno e indiviso, sendo tão extenso como a comunidade visível da Igreja e constituindo a expressão da sua rica variedade. Princípio e fundamento visível dessa unidade é o Romano Pontífice, cabeça do corpo episcopal”. “O Espírito Santo vos constituiu Bispos para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue” (At 20, 28). 
        Mas vale ressaltar que a Conferência Episcopal, instituição eclesiástica, não existe para anular o poder dos Bispos, instituição divina. O Papa emérito Bento XVI, quando Cardeal, falou sobre um dos “efeitos paradoxais do pós-concílio”: “A decidida retomada (no Concílio) do papel do Bispo, na realidade, enfraqueceu-se um pouco, ou corre até mesmo o risco de ser sufocada pela inserção dos prelados em conferências episcopais sempre mais organizadas, com estruturas burocráticas frequentemente pesadas. No entanto, não devemos esquecer que as conferências episcopais... não fazem parte da estrutura indispensável da Igreja, assim como querida por Cristo: têm somente uma função prática, concreta”. É, aliás, continua, o que confirma o Direito Canônico, que fixa os âmbitos de autoridade das Conferências, que “não podem agir validamente em nome de todos os bispos, a menos que todos e cada um dos bispos tenham dado o seu consentimento”, e quando não se trate de “matérias sobre as quais haja disposto o direito universal ou o estabeleça um especial mandato da Sé Apostólica”. E recorda o Código e o Concílio: “o Bispo é o autêntico doutor e mestre da Fé para os fiéis confiados aos seus cuidados”. “Nenhuma Conferência Episcopal tem, enquanto tal, uma missão de ensino: seus documentos não têm valor específico, mas o valor do consenso que lhes é atribuído pelos bispos individualmente” (Ratzinger, A Fé em crise, pag. 40 e 41).

        Isso posto, recordamos que o espírito de fé e o respeito que o católico deve à hierarquia da Igreja impedem-no de tratar a Igreja como uma sociedade qualquer. Se a chamamos “a santa Madre Igreja”, é porque a consideramos nossa mãe, merecedora de todo o nosso respeito e amor. E não se expõem os defeitos da mãe em público, sobretudo em redes sociais. Mas já que o fizeram, faço aqui alguns esclarecimentos.
        Na Igreja, divina na sua fundação, graça, sacramentos e doutrina, mas humana, nos membros que a compõem, tem, por isso mesmo, fraquezas e pecados nos seus membros.
“Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica... Ela é santa, apesar de incluir pecadores no seu seio... É por isso que ela sofre e faz penitência por esses pecados, tendo o poder de livrar deles a seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo” (Credo do Povo de Deus). “A Igreja, que reúne em seu seio os pecadores, é ao mesmo tempo santa, e sempre necessitada de purificação... continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus” (Lumen Gentium, 8).
        Nosso Senhor comparou o seu Reino a uma rede cheia de peixes, bons e maus (Mt 13, 47-50). A separação será no fim dos tempos. Quem quiser agora uma Igreja só de santos deveria morrer e ir para o céu, onde lá só estão os bons. Por isso, não percamos a fé, ao vermos os erros da parte humana da Igreja. 
        No conjunto do episcopado brasileiro, há muitos bispos sábios e santos. Mas há também bispos como eu. Nem por isso somos menos dignos de respeito.
        Ao combater os erros que existem na parte humana da Igreja, não podemos perder o respeito às pessoas, sobretudo às autoridades da Igreja, e muito menos desprestigiá-las, para alegria dos seus inimigos, com ofensas, exageros, meias verdades e até mentiras, caindo em outro erro. A meia verdade pode ser pior do que a mentira deslavada.
        Qualquer pessoa não católica que lesse certos sites e postagens de alguns católicos críticos, injuriando os Bispos e autoridades da Igreja, certamente iria raciocinar: “é impossível que tais pessoas sejam católicas, pois não se fala assim da própria família!”.

        Por outro lado, AOS CARÍSSIMOS IRMÃOS NO EPISCOPADO lembro humildemente que, mesmo exagerando e passando dos limites, os clamores dos fiéis leigos podem estar refletindo o “sensus fidelium”, que devemos escutar.
        Está na hora de recuperarmos o bom nome da nossa Conferência Episcopal. Não podemos tolerar pacificamente tantos abusos doutrinários e litúrgicos que vemos por aí, em nossas Igrejas, e que fazem tanto sofrer nossos fiéis. Será que eles não estão explodindo de tanto aguentar certas invencionices litúrgicas e aberrações doutrinárias? Não estaria ocorrendo o que São João Paulo II descreveu na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia: “Num contexto eclesial ou outro, existem abusos que contribuem para obscurecer a reta fé e a doutrina católica acerca deste admirável sacramento. Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrifical, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e valor de um encontro fraterno ao redor da mesa... (n. 10). “Temos a lamentar, infelizmente, que sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, não faltaram abusos, que foram motivo de sofrimento para muitos...” (n. 52). “O mistério eucarístico – sacrifício, presença, banquete – não permite reduções nem instrumentalizações...” (n. 61)?
        Não sentem nossos leigos vontade de exclamar como os hebreus: “Senhor, invadiram tua herança, profanaram o teu santo templo...” (Sl 79, 1)?
      É claro que os nossos fiéis ficam escandalizados vendo ministras não católicas no altar “concelebrando” a Santa Missa junto com os nossos Bispos.
        Para que permitirmos em nossos textos a terminologia de “gênero”, que veicula uma ideologia não ortodoxa?
      Todos são convidados e bem-vindos aos nossos encontros. Mas por que deixarmos pessoas de mentalidade socialista e mesmo comunista, membros de partidos políticos de “esquerda” serem protagonistas em nossos encontros eclesiais e nos instruírem em análises de conjuntura?
        Combatemos com razão os desmandos do capitalismo selvagem, do consumismo e do espírito mercantilista. Mas não podemos nos esquecer dos ensinamentos do Magistério sobre o socialismo: “O socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã... E, se esse erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se, contudo, numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, n. 116 e 119 - 15/5/1931).
        Devemos deixar bem claro que somos fiéis à doutrina social da Igreja e, por isso, nos ocupamos das questões sociais e da política, como sendo “uma prudente solicitude pelo bem comum” (João Paulo II, Laborem exercens, 20). A Igreja está ao serviço do Reino de Deus, anunciando o Evangelho e seus valores, mas “não se confunde com a comunidade política nem está ligada a nenhum sistema político” (Gaudium et Spes, 76). Principalmente “a Igreja não pode estimular, inspirar ou apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das propriedades agrícolas” (Discurso aos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, na sua visita “ad limina”, março de 1996).
        Além disso, é preciso que tenhamos clareza na prestação de contas das coletas da Campanha da Fraternidade. Diante da suspeita levantada de que as doações dos fiéis estão indiretamente indo para entidades que patrocinam o aborto e movimentos revolucionários, devemos ser claros na explicação ao nosso povo: se por acaso desviaram suas doações, o que pode acontecer com qualquer esmola que damos, devemos de agora em diante sermos mais exigentes na aplicação desses valores e não permitir tais desvios. Há tantas entidades beneficentes católicas que poderiam receber essas doações!
        Que Deus nos abençoe, que Maria, Mãe da Igreja, nos proteja e São José, patrono da Igreja católica, nos defenda do mal.

                         *Bispo da Administração Apostólica Pessoal   São João Maria Vianney, membro do Regional Leste 1 da CNBB.

GANHAR SEM TRABALHAR?

          Na Quaresma, tempo de oração e penitência, a Igreja nos propõe como reflexão as tentações de Jesus no deserto. A primeira tentação, repelida por Jesus, é emblemática: disse o tentador: “manda que estas pedras se transformem em pães!” (Mt 4, 3). É a tentação de ganhar o pão, o sustento, sem trabalho! E a terceira tentação – “Tudo isso (os reinos e a riqueza) te darei, se prostrado me adorares” (Mt 4, 8-9) reforça a primeira: conseguir riqueza imoralmente.
            A Sagrada Escritura, citada por Jesus para rejeitar essas tentações, nos ensina que o trabalho é obra de Deus. Deus, ao criar o homem, colocou-o no jardim do Éden para nele trabalhar: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar e guardar” (Gn 2, 15). O trabalho existe, portanto, antes do pecado. Depois deste, passou a ter a conotação de penitência, pois adquiriu uma nota de dificuldade e o necessário esforço para desempenhá-lo: “Comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gn 3,19). O meio, portanto, para se ganhar o pão, o sustento, é o trabalho. Por isso, São Paulo ensina: “Quem não quer trabalhar também não coma. Ora, temos ouvido falar que, entre vós, há alguns vivendo desordenadamente, sem fazer nada, mas intrometendo-se em tudo. A essas pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e, assim, comam o seu próprio pão” (2 Ts 3, 10-12). Claro que existem diversas formas de trabalho: manual, braçal, intelectual, o do empresário, gerente, supervisor, o trabalho materno, etc. Até Jesus disse: “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5, 17). “Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio e que se não deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o que Jesus Cristo nosso Senhor confirmou com o seu exemplo. Ele que, ‘de muito rico que era, se fez indigente’ (2Cor 8,9) que quis passar aos olhos do mundo como filho dum carpinteiro, que chegou a consumir uma grande parte da sua vida no trabalho manual (Rerum Novarum, 15).
            A corrupção, hoje generalizada, o que é senão querer ganhar o sustento, e muito mais, desmedidamente, sem trabalhar. Querer receber sem esforço. E até imoralmente. É a grande tentação do mundo de hoje, o tremendo mau exemplo dado pelos grandes! E não só a corrupção: o jogo, os trambiques, os roubos, os assaltos, a desonestidade nos negócios, a ambição, o desejo de ostentação, veem também do desejo desordenado de querer ganhar sem o devido trabalho. E até aqueles que, à espera de um milagre, não trabalham e esperam que Deus os ajude.
            “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da Fé e se enredaram em muitas aflições” (São Paulo:1Tm 6,10). “Aquele que ama o ouro não estará isento de pecado; aquele que busca a corrupção será por ela cumulado. O ouro abateu a muitos... Bem-aventurado o rico que foi achado sem mácula... Quem é esse homem para que o felicitemos? Àquele que foi tentado pelo ouro e foi encontrado perfeito está reservada uma glória eterna... ele podia fazer o mal e não o fez” (Eclo 31, 5-10).



RESGATANDO FAMÍLIAS

            No último sábado, dia 17, na Basílica-Santuário Nacional de Aparecida, se reuniram, como todos os anos, milhares de “Homens do Terço”. Foram contabilizados de 70 a 80 mil homens. É emocionante presenciar a chegada das romarias de todo o Brasil, trazendo homens de todas as classes sociais, unidos por essa oração abençoada, o Rosário de Nossa Senhora. Esta foi a 10ª Romaria Nacional do Terço dos Homens, com o tema “Terço dos Homens, em comunhão com as vocações, resgatando famílias”. A missão do Terço dos Homens é resgatar para o seio da Igreja homens de todas as idades, e com eles suas famílias, pois a presença masculina na Igreja é imprescindível para a formação da família e de uma sociedade cristã.
              Iniciado no Santuário da Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt, no Nordeste, e propagado pelo Brasil inteiro, o Terço dos Homens é já uma realidade em todos os Estados do Brasil, calculando-se um milhão de homens que fazem parte desse movimento. Parabéns! Eles merecem nosso incentivo. Como diz a bela letra do Hino do Terço dos Homens, composto pelo Pe. Antônio Maria, “Ó Mãe e Rainha do Santo Rosário, Mãe Admirável, Mãe do Santuário, o mundo sem fé, na dor se consome, ajuda esse mundo com o Terço dos Homens- No Teu Santuário, que é fonte e berço, nasceu a Missão dos Homens do Terço, Santuário da nova Evangelização, Escola de nossa santificação”. 
            O Papa São João XXXIII dizia que o Terço é o Evangelho das pessoas simples. De fato, é uma recordação e meditação do Evangelho na escola de Maria, como diz a letra do mesmo hino de que falamos: “É Tua escola o Terço, ele é luz, ninguém como Tu sabe mais de Jesus; o Santo Evangelho ensina de novo, Teu Terço é a Bíblia que Deus deu ao povo”.  
            O Papa São João Paulo II ensinou-nos que o Rosário “concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica da qual é quase um compêndio... Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor” (Carta Apost. Rosarium Virginis Mariae, 1).  
            Mesmo sendo uma oração de louvor a Maria Santíssima, o centro do Rosário está em Jesus Cristo, cujo nome é o centro de gravidade da Ave-Maria, a dobradiça entre a sua primeira parte e a segunda. “É precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário” nos ensina São João Paulo II.  
            E o Rosário é uma oração muito recomendada por todos os últimos Papas, incluindo o Papa Francisco. “Queira Deus – é um ardente desejo nosso – que esta prática de piedade retome em toda parte o seu antigo lugar de honra!” (Leão XIII). “O Rosário é a mais bela e a mais preciosa de todas as orações à Medianeira de todas as graças: é a prece que mais toca o coração da Mãe de Deus” (São Pio X). “Maria nos acompanha, luta conosco, apoia os cristãos no combate contra as forças do mal. A oração com Maria, em particular o Rosário – mas ouçam bem: o Rosário” (Francisco).